domingo, 27 de janeiro de 2013

Cego

Te vejo nas minhas projeções de futuros próximos. Te vejo entre as paredes da sua casa, da sua vida, da sua rotina, que mal conheço. Te vejo em qualquer sinal de esperança. Te vejo nas paixões fugazes e nos amores eternos. Te vejo nas desilusões. Te vejo em sorrisos e prantos. Te vejo em planos presentes. Te vejo em desejos, vontades, necessidades. Te vejo sem te olhar. Te vejo apenas dentro de mim mesma. Te vejo longe, mas sinto perto. Te sinto intenso. Te intensifico cada dia mais, mesmo sem querer.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Tão

Tu és tão presente
És tão incoerente
Tão latente

Tu és tão passado
És tão fragmentado
Tão atado

Tu és tão frio
És tão arredio
Tão vazio

Tu és tão impulsivo
És tão agressivo
Tão nocivo

Tu és tão saudade
És tão duplicidade
Tão intensidade

Tu és tão rotina
És tão meu dia
Tão energia

Tu és tão breu
És tão meu
Tão...
Eu

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Fui

Todos os dias me despeço de mim mesma. Me despeço de quem fui. De quem sou. E não tenho tempo de dizer um "oi" para quem serei, porque quando vejo, já fui.

Nesse ano, essa sequência ininterrupta de despedidas veio mais intensa, devastadora. Tive que me despedir não apenas de quem fui, mas também de pessoas que me fizeram ser. De momentos que mudaram meu jeito de ser.

Nos últimos vinte e um finais de ano com os quais me deparei, o ano seguinte era apenas uma continuidade, como água de rio num dia de brisa mansa. Depois do primeiro ano, veio o segundo. Depois do segundo, o terceiro. Depois do terceiro, o quarto. E depois do quarto? Quem sabe correnteza, quem sabe devaneio, quem sabe?

Essa incógnita tão palpável e, ao mesmo tempo, abstrata, carrega consigo um misto de medo, curiosidade e uma energia inexplicável. Acho que essa incoerência de sensações fervilha porque ainda não sei quem vou ser daqui pra frente. Sei dos meus sonhos, mas não sei dos meus planos. Sei o que quero, mas não sei o que sinto.

Um ciclo que se fecha, mas que continua em circulação, compondo meus eus. Um ciclo que permanecerá em qualquer novidade em mim. 

O que fui sempre fará parte do que sou.

A vida é passado. Passado recente, distante e futuro.
Espero que o amanhã sopre ventos tão bons quanto o dos ontens que me trouxeram até aqui.

domingo, 18 de novembro de 2012

Dores

Toda dor tem um fundo de morte
Do outro, do dia, do instante
No fundo a vida é uma sucessão de coisas que morrem
E a morte de um eu, de um sou
É uma das mais difíceis de encarar

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Não ser

Se imortais
Os homens fossem
A existência
Seria um cárcere

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ponto final...

O problema do fim é que ele não é exclusivo, único e absoluto. Todo fim é um sequência dolorida de pequenas e grandes despedidas. O adeus ao sentimento, ao beijo, ao cheiro, ao jeito, ao chocolate preferido e o sorriso angelical. E essas coisas menores que doem ainda mais fundo, porque são simples, puras e naturais.

Nada é mais difícil do que se despedir. Acho que eu nunca vou estar pronta pra dizer adeus pra nada e nem ninguém.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Interpretante


Interpreto o poema de Camões
A ironia no sorriso
O mau gosto do exagero
E o perigo do granizo

Interpreto o dizer das entrelinhas
O sabor do alho e do caju
O calor no sol profundo
E a traição de Capitu

Interpreto a verdade em uma lágrima
O tom de cada vermelho
A maciez dos lençóis de seda
E a imagem por entre o espelho

Interpreto um infinito de sonhos
Infinito de sabores
De mundos
Cores

Só não sou capaz de interpretar
Essa incoerência de sentimentos em não e sim
Mesmo todos eles partindo
De uma essência pura contida dentro de mim